Arquivo do mês: março 2012

Por que criatividade é ser diferente minha gente, e nao cópia!


Está aí o resultado. Obrigado a todos os envolvidos.

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CRISE NAS INFINITAS TERRAS

Há certas coisas que não mudam, por mais que se passe o tempo. A gente cresce, aprende, fica um pouco mais velho e barrigudo, mas não adianta, uma teimosia cretina e uma espécie de orgulho da sabedoria que possui nos impele a fazer a mesma porcaria de novo. Se você sabe que misturar algumas bebidas vão encurtar a sua noite por que com mil diabos acabamos repetindo as doses. Seria o entorpecimento dos líquidos envolvidos? Duvido muito. Orgulho, puro e mesquinho orgulho, por não darmos o braço a torcer que ainda estejamos errados, ou de repente, simplesmente ainda não aprendemos a lição. Basta olhar para o seu movimento pela manhã. Acreditar que alguns cinco minutos irão fazer diferença nesse sono todo é pura ilusão. Por que a gente não pega e admite logo?

– Fudeu! Tenho que acordar…
– Calma, fica mais um pouco.
– Não, tenho que levantar!
– Não adianta correr, você sabe que vai se atrasar mesmo no caminho.
– Mais um motivo para levantar logo, não acha?
– Ah, sim, você vai no banheiro né?
– Vou logo antes de todo mundo acordar.
– Tá, tá, aproveita e fecha mais ali a janela. Odeio esse sol de manhã na minha cara.
– Tá, tá, tá…
– Beijo?
– Bom dia querida.

Uma meia hora depois, já de banho tomado.

– (bem baixinho) Baby? Tenha um bom dia…
– (sonolenta e grogue) Tá… vai com Deus, cuidado tá.

Saindo assim de casa parece que o meu emprego é até de policial; apesar de que, em se tratando de Rio de Janeiro uma bala perdida, atropelamento ou merda de cachorro no chão tudo pode acontecer. Claro que não estou nem aí para essas coisas, pois caso contrário nem sairia de casa. Minha avó sempre fica receosa quando vê o noticiário. Ela mora na minha cidade natal, veio aqui na cidade poucas vezes, mas sabe como é que é, junta aquele carinho de vó, cabeça de cidade pequena, síndrome do pânico e todas as neuras que a metrópole fez para o ser humano. Admita, você também se sente refém quando sai à rua, seja por um carro atravessando o cruzamento, seja por um desconhecido te olhar estranho. Tente sorrir, ás vezes funciona, ou faça como eu faço, não olhe nos olhos das pessoas na rua. Finja que está apressado ou coisa parecida.Finja ser meio maluco, de vez em quando fale sozinho – ninguém mexe com pessoas que falam sozinhas. Não se acanhe porém se alguém te puxar conversa na fila do banco ou dentro do elevador, ou mesmo no meio da rua. Tem mais gente desesperada por aí do que imaginamos, mas na maior parte das vezes não querem só desabafar ou perguntar como foi seu dia, talvez um trocado para café, pão ou passagem para Alcântara como veremos a seguir:

– Oi, com licença…
– Sim, tudo bem? – aconteça o que acontecer, a educação sempre!
– …desculpa incomodar, mas eu perdi meu dinheiro, fui assaltado, tô só com a roupa do corpo.
– Ahã… – pronto, ele vai dar o bote – fale…!
– É que eu preciso de uns trocados para passagem de volta para Alcântara.
– Alcântara?
– É… – pronto, você caiu!

A mesma ladainha de sempre de quem faturar. Poderia até ser verdade. Eu tinha dinheiro, mas duvido que teria troco para cinquenta e já eram mais de oito da noite. O dia passara rápido e eu tinha uma esperança de chegar cedo em casa. Este ser em questão sempre perambulava por ali. Pra falar a verdade era a segunda vez que vinha com esse papo para cima de mim, só não lembrava na sua mente cheia de cana que havia tentado esta história antes. Outro dia mesmo vi passando e com o mesmo papo para os transeuntes naquele ponto. Óculos com lentes engorduradas, barba por fazer, camisa de algum show de reggae ou coisa parecida, bermuda, sempre de bermuda, chinelos de couro e andar trôpego. Como julgar alguém assim.

– Desculpa meu camarada, mas eu só tenho o da minha passagem.
– Qualquer trocadinho serve.
– Não tenho!
– Obrigado.

Menos um otário no mundo, mais um vagabundo sóbrio esta noite.
Chega em casa mal humorado, poderia ter falado qualquer outra coisa, tentar mudar a vida de um infeliz, mas não. Meu egoísmo foi maior que minha benevolência, cada um com seus problemas, já tenho muito para resolver e ninguém nunca me ofereceu uma mão em qualquer coisa mesmo.
Algum tempo depois viu o mesmo vagabundo andando pela rua numa tarde ensolarada, bem no meio da semana, mas em outro lugar da cidade. Usava outras roupas, ainda bermuda, mas a barba aumentou e o cabelo parecia mais sujo que antes. Gastei mais uns três minutos ou menos me sentindo culpado por algum motivo. De repente uma cachaça não resolve nada, mas a gente não isso todo dia com outras coisas até muito piores. Cigarros, mentiras, pornografia, televisão, cama, farinha ou preguiça. Cada um paga por aquilo que te satisfaz. Qualquer esmola é bem vinda, mas nem todo mundo tem mesmo coragem para admitir isso.


MERDA SENHOR

Era uma sexta feira e já estava com passagem comprada para Bigville, a fim de visitar a família. Parou no primeiro pardieiro onde sentiu cheiro de comida e pediu a refeição do dia. Eram quase quatro horas da tarde e ainda não tinha almoçado. Para sua sorte, porque vai ter um karma ruim assim no quinto dos Inferno, a casa não estava mais servindo almoço:
– Tragam-me as sobras, qualquer coisa de comer!
Ninguém iria negar o pedido do glutão, afinal de contas, ele era grande e não aparentava lá muita paciência. Melhor não perder o cliente e nem ele queria perder a viagem.
Finalmente chega a sua mesa um prato com metade batatas cozidas, outra uns restos de frango, carne seca e arroz cheio de legumes.
– Que comida de maricas! Tem pra homem não?
Puto da vida, investe na farinha e mistura aquilo tudo com osso do frango e tudo e come de colher. A cerveja estava quente mas resolveu não reclamar. Por menos que isso já tinha quebrado um bar, mas a pressa era maior que sua raiva.
Não deixou gorjeta e catou suas tralhas no lombo e foi para a Estação de Trem ali perto. No meio do caminho sentiu a pontada. Teria sido muita pimenta? Tinha digestão rápida, era de hábito ir dar uma barrigada logo depois que comia, mas no que comeu correndo e encheu o cu de birita enquanto a comida não chegava nem deu bola. A segunda pontada foi mais forte. Ignorou solememente. Na terceira já sentido o rabo do macaco para fora começou procurar um arbusto ou lugar mais aprazível para soltar aquele barro maldito.
Faltavam uns dez minutos para o trem sair, ainda dava tempo. Conseguiu um sanitário decente na Estação, que para variar, estava ocupado.
– Demorar aí?
– Tem gente filha da puta!
Foi para o próximo reservado e o aspecto do ambiente não era dos melhores, além da falta de papel. Não pensou duas vezes e pegou o bilhete que comprara na véspera. Ia ficar merda na ponta dos dedos mesmo mas pelo menos a cueca ia se salvar do pior. Eis que a encomenda demorou a sair e o apito do trem tocava freneticamente. Suou mais um bocado e finalmente saiu um bom resultado.
Bilhete cagado, calças sujas e um senhor de cabelos grisalhos na porta de um dos vagões já ia entrando quando Ruffus lhe chama atenção:
– Segura essa merda!


MOEDOR DE CARNE

Nunca gostou dos afazeres domésticos, prezava mais por trazer carne e cerveja para mesa e comprar aquilo ou outra coisa quanto a mulher lhe solicitasse. E tinha que ser com jeito, na hora certa, de preferência depois dos jogos das quartas com os amigos. Era homem de palavra, nunca voltava atrás daquilo que prometia. Tomar seu corpo semi inerte nestas ocasiões era quase certo de uma boa briga a dois.
Se chegava com muitos chamegos já sabia que ia perder um bom dinheiro. Era justo, cedia quando necessário, mas era uma sovina no que dizia respeito as coisas de casa.
– Moedor de carne quebrou.
– Eu sei, mulher.
– E o que vamos fazer a respeito?
– Foi você quem quebrou?
– Não, mas quando cheguei agora pouco na cozinha…
– Então?
– Como é que vou moer carne agora?
– Faça bifes, as facas estão amoladas.
– Mas e o moedor de carne?
– Problema, ora!
Sai resmungando em direção a cozinha e bate a porta. Por pouco não corre a mão na fuça dela por isso, apesar de nunca ter batido em mulher. Seria muito mais fácil dizer para a mulher que o gostava da carne moída, mas os bifes mal passados e quase sangrando. Mas Ruffus não é um homem lá muito sutil, é demais para alguém como ele.


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