DESISITI DESSA VIDA DE SUPER HERÓI OU DE VOLTA A TERRA DO NUNCA

NUNCA TIVE TODO ESSE PODER PARA SALVAR O MUNDO, MUITO AO MENOS DEFENDER O QUARTEIRÃO DA MINHA RUA. HOUVE UM TEMPO EM QUE A TURMA SE JUNTAVA E PENSAVA FAZER PARTE DE UM CLÃ NINJA OU COISA PARECIDA. CADA UM TINHA UMA ARMA DIFERENTE, BASTÃO, CORRENTES OU O QUE PUDESSE SER USADO COMO ARMA MORTAL.

NOSSOS INIMIGOS? NA MAIOR PARTE DAS VEZES ERAM NÓS MESMOS, MAS HAVIA SEMPRE AQUELA RIVALIDADE COM O PESSOAL DA RUA DE BAIXO E LÁ DE CIMA. SIM, A MINHA TURMA FICAVA BEM NO MEIO DO BAIRRO, ONDE NÃO TINHA NADA A NÃO SER OS PARALELEPÍPEDOS QUE VIVIAM ESTOURANDO O PÉ QUANDO JOGÁVAMOS UMA PELADA OU ARREBENTANDO O QUEIXO NO CHÃO.
LÁ NO FINAL DA RUA, ONDE TINHA AQUELA TURMA BARRA PESADA – A GENTE TINHA MEDO DE MACONHEIRO QUANDO ERA PEQUENO, PODE? – E JUSTAMENTE LÁ QUE FICAVA O TAL “CAMPINHO”, UM TERRENO DE BARRO BATIDO À BEIRA DE UM BREJO PERTO DE UM CURRAL. ALI ACONTECIAM OS GRANDES EVENTOS ESPORTIVOS DA COMUNIDADE E CLARO, AS DISPUTAS ENTRE OS CLÃS RIVAIS MAIS ACIRRADAS. COSTUMAVA FAZER EXPEDIÇÕES NO MORRO AO LADO, A GENTE TRAZIA DE CASA UM MONTE DE BISCOITO, ÀGUA E FRUTA E IA BRINCAR DE “SAFARI” NO MEIO DA MATA. DEPOIS DE ANDAR UM BOCADO A GENTE ACABA VOLTANDO MORTO DE CANSADOS, SUJOS ATÉ O PESCOÇO E CHEIOS DE CARRAPATOS.
VOLTANDO ÀS DISPUTAS DE TERRITÓRIO, NÃO ME LEMBRO DE REALMENTE TER ACONTECIDO UMA DISPUTA ENTRE AS PARTES, MAS SEMPRE HAVIA UM TEMOR EM ANDAR EM TERRITÓRIO INIMIGO. COMO ANDAVA DE SKATE DESDE CEDO DESCIA COMO UM LOUCO PELA CALÇADA ATÉ A PRACINHA, NO COMEÇO DO BAIRRO. EVENTUALMENTE ATÉ CRUZAVA COM ALGUM INIMIGO, MAS VINHA TÃO RÁPIDO QUE ERA QUASE IMPOSSÍVEL ME PARAR SEM UM DOS DOIS SE MACHUCAR. PROBLEMA ERA SUBIR DE VOLTA. FICAVA NA PADARIA TOMANDO CHICABON ESPERANDO PASSAR ALGUÉM PARA SUBIR JUNTO, OU ENTÃO DESPISTAR POR UMA RUA INTERNA QUE CORTAVA JUSTAMENTE O PONTO DE MAIOR CONFLITO, BEM NA FRENTE DA CASA DO AUDRINHO – UM CARINHA QUE SEMPRE FOI BEM MAIS ALTO E FORTE QUE TODO MUNDO, ARRANJAR ENCRENCA COM ELE ERA A MORTE CERTA.
EIS QUE UM DIA DEPOIS DESSA PALHAÇADA TODA DE DISPUTA DA TURMA DE CIMA COM A TURMA DE BAIXO, HOUVE UMA FESTA, AQUELES HI-FI´S, CADA UM LEVAVA UNS DISCOS, COMPRA-SE REFRIGERANTES, ALGUNS LEVAVAM CACHAÇA E DE VEZ EM QUANDO ATÉ O PAI E MÃE AJUDAVA NA DECORAÇÃO – LÓGICO QUE ELES NÃO SABIAM DAS DOSES QUE A TURMA PREPARAVA. ENFIM. UMA FESTINHA DESSAS A PORRA DO AUDRINHO RESOLVEU LEVAR UMA CEBOLA. TODO MUNDO QUE PASSAVA POR ELE LEVAVA NO OUVIDO, NO OLHO, NA BOCA E ONDE MAIS PUDESSE SER ATINGIDO. FOI QUANDO ELE RESOLVEU “BRINCAR” COMIGO, LOGO EU, O MAIS PACATO DE TODA A TURMA, O SÁBIO. TODO MUNDO RIA, MESMO QUEM TAMBÉM HAVIA TOMADO UMA CEBOLADA. NEM PENSEI:
– SEU FILHA DA PUTA, ENFIA CEBOLA NO RABO DA SUA MÃE!
MINHA PRIMEIRA BRIGA. ELE ME EMPURRA NA PAREDE EU VOLTO E COMEÇO INULTILMENTE A SOCAR NA BARRIGA, O SEGUNDO LUGAR MAIS DURO DEPOIS DA MÃO DELE. O PESSOAL RESOLVE APARTAR A BRIGA, E COMO! SEGURAM A MIM E NÃO A ELE. PARECIA UM TREM VINDO NA MINHA DIREÇÃO. O AUDRINHO DERRUBOU TODO MUNDO PELO CAMINHO E ENCAIXOU UM SOCO BEM NO MEU NARIZ, UM BELO SOCO. NÃO SATISFEITO ME DEU OUTRO NO PEITO. ERA ISSO OU MEU QUEIXO – NÃO ME PERGUNTE COMO, ACHO QUE FOI UM INVOLUNTÁRIO. DEPOIS DISSO VIROU TUDO UM BORRÃO NA MEMÓRIA. SÓ ME LEMBRO DE ACORDAR NO MEIO DA ESCADA QUE DAVA ACESSO AO SALÃO ONDE OCORRIA A FESTA E O BETINHO ME PERGUNTANDO SE TAVA TUDO BEM.
– PORRA, VOCÊS NÃO FIZERAM NADA!
– TU TÁ SANGRANDO, DUCA… (DUCA ERA O MEU APELIDO QUANDO MOLEQUE)
– CLARO QUE TÔ SANGRANDO!
– O AUDRINHO FOI EMBORA, MEU PAI MANDOU ELE EMBORA.
O PAI DO BETINHO ERA UM GAUCHÃO, MAS DAQUELES GAÚCHOS MACHOS PACA, CHÊ. TINHA QUASE UNS DOIS METROS DE ALTURA, E DE MAIS A MAIS, QUANDO PAI OU MÃE ENTRAVA NO MEIO DESSAS BRIGAS NINGUÉM TINHA PEITO PARA DISCORDAR OU REVIDAR, ENFIAVA O RABO ENTRE AS PERNAS E IA PRA CASA REZANDO PARA NINGUÉM EM CASA JÁ ESTAR SABENDO. EU AQUI FUI PRA CASA DIRETO DORMIR, IA TER TROCO, EU TINHA CERTEZA.
NO DIA SEGUINTE ACONTECEU DA TURMA TODA SE ENCONTRAR DE NOVO E ROLOU AQUELA PRESSÃO PARA FAZERMOS AS PAZES. “OK, FOI MAL, PASSOU E TAL…” ALGO ASSIM. DEIXEI PASSAR MAS A VINGANÇA FICOU GUARDADA. E GUARDOU TANTO QUE ATÉ HOJE NUNCA REVIDEI. ME DEI CONTA QUE TEM COISAS NA VIDA DA GENTE QUE TEM DE SER ASSIM. NÃO É SEMPRE QUE SE GANHA, NINGUÉM TAMBÉM PERDE TODO DIA, MAS SE PERDEU, PERDEU. FICAR REMOENDO ISSO NO ÍNTIMO SÓ PROVA QUE VOCÊ IA APANHAR MESMO DE QUALQUER JEITO.
FOI UM DIA DE HERÓI, SIM. ATÉ HOJE NUNCA OUVI FALAR DE OUTRO DOIDO A ENCARAR AQUELE BRUTAMONTES. PELO MENOS NO NOSSO BAIRRO. DE CERTA FORMA EU VENCI SIM, PORQUE PROVEI PARA MIM MESMO QUE O MEDO NUNCA FOI UMA FRAQUEZA, MAS SIM ALGO QUE ME FORTALECIA. ALGUMAS VEZES A GENTE ATÉ SABE QUE VAI PERDER, MAS SÓ TEM UM JEITO DE SABER E TER CERTEZA DISSO. DANDO A CARA A TAPA.
PS: HOJE SOMOS BONS AMIGOS, AS CRIANÇAS DO MEU BAIRRO NEM TEM MAIS CAMPINHO PARA BRINCAR E PENSO DUAS VEZES ANTES DE CRIAR CONFUSÃO NA RUA – AINDA NÃO APRENDI A SEGURAR BALA COM DENTE.
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